Camisas de futebol – primórdios e evolução

Pegue um calção comprido, parecendo quase uma calça Capri. Vista. Ah, não se esqueça do cinto! Pegue meias bem grossas e uma chuteira rústica, pesada, com cravos de madeira. Coloque-os. Agora, para finalizar, está vendo aquela camisa grande, feita com o mais aveludado tecido, com quase 1 kg de pura massa têxtil? Pois é, coloque-a também. Pronto? É hora de jogar futebol! Ué, por que o espanto? Era assim que os homens jogavam lá no século XIX e em boa parte do início do século XX!

Pensar em toda essa parafernália, hoje, soa engraçado, mas é uma pequena mostra de como a evolução tecnológica e industrial também se fez presente no mundo esportivo. Acompanhar a evolução das vestimentas futebolísticas é como viajar em um túnel do tempo da própria moda. Assim como a sociedade se vestia com roupas pomposas, detalhes em cada centímetro de tecido e costuras complexas, os times e seleções de futebol também tinham suas particularidades em seus trajes. Década após década, as cores foram mudando, os cortes, idem, e os tecidos pesados que absorviam todo o suor dos atletas e mudavam de cor com o decorrer do jogo deram lugar às vestimentas cheias de estilo, leves, com furos, retenção quase zero de suor, dry fit aqui, climacool acolá e até tecnologia para impedir a agressão dos raios UV. É, o tempo fez (muito) bem ao lado fashion da bola. É hora de relembrar essa evolução.

Século XIX – a era dos “trajes de gala”

Uma foto clássica do Harrow School, em 1867. Já pensou jogar bola assim?

Com berço na Grã-Bretanha (embora existam registros bem antigos em outros países), o futebol começou a ser disputado de forma mais maciça em colégios a partir dos anos 1800, saindo das ruas e partindo para terrenos baldios. A partir de 1823, os colégios públicos ingleses começaram a praticar o esporte com as mãos e pés, misturando rúgbi e futebol. A garotada jogava com seus uniformes escolares e não se preocupava com vestimentas próprias. Resultado? Os “atletas” chutavam e arremessavam bolas com calças, camisas de mangas compridas de botões, cintos, meias e chapéus. Um verdadeiro traje “esporte fino”.

Acontece que era bem difícil diferenciar os times por conta disso. Em alguns casos, ficava definido que o “time A” deveria providenciar chapéus de uma cor e o “time B” de outra, por exemplo. Ou que jogadores específicos deveriam utilizar lenços em suas camisas ou até cachecóis, se a partida fosse no rigoroso inverno inglês. Além da bagunça das vestimentas, o uso misto de mãos e pés começou a causar confusão, e levou, tempo depois, à adoção de regras para unificar o jogo, que tomou forma em 1848, na Universidade de Cambridge, onde foi instituído pelos diretores dos colégios da cidade que ficaria proibido o uso de mãos e braços no football. Tal acordo demorou a se concretizar por completo, o que ocorreria apenas em 1863, com a produção de cartilhas e livros que foram distribuídos em clubes, escolas, bancas de jornais entre outros locais de ampla divulgação.

Foto histórica de Inglaterra e Escócia no final do século 19.

A partir da década de 1870, o futebol começou a crescer e surgiram os primeiros torneios, bem como mais regras, como a obrigatoriedade de uniformes por parte dos times. Por conta do alto custo dos tecidos de algodão coloridos, eram raras as equipes com mais de uma cor, além de os próprios jogadores terem o dever de comprar seus uniformes. Com isso, era comum ver equipes com uma só cor na camisa e calções quase sempre na cor branca. Em alguns casos específicos, clubes adotavam camisas listradas, com uma cor escura e a outra em branco. Depois de algum tempo, as agremiações passaram a financiar os uniformes graças à profissionalização e ao início da cobrança de ingressos em jogos.

Uma representação de Sunderland e Aston Villa, em 1895.

Porém, com os clubes sempre escolhendo determinadas cores e impossibilitados de uma variação maior em suas camisas, uma hora alguém poderia entrar em campo com uma vestimenta igual. E isso aconteceu em 1890, quando Sunderland e Wolverhampton Wanderers viram-se de vermelho e branco em pleno gramado. Como era o dono da casa, o Sunderland teve que mudar de camisa para que a partida pudesse continuar – o que constava nas regras do jogo à época. Em 1921, tais regras mudaram, e o time visitante era quem deveria mudar de camisa caso seu adversário tivesse vestimentas com as mesmas cores.

Século XX – Algodão pra que te quero

A profissionalização e crescente emancipação do esporte passou a influenciar diretamente nos uniformes. As equipes tinham que definir suas cores junto à federação e um uniforme reserva, que, no início, era na cor branca. Com a evolução da moda, as camisas começaram, ainda que lentamente, a mudar de tecido e ficar menos pesadas. O tal tecido de algodão, que ficava completamente encharcado ao final dos jogos e desgastava muito os atletas, deu lugar à malha de algodão, mais leve e que possibilitava a inserção de costuras diferentes. Os botões passaram a dar lugar aos cordões e novas combinações de cores começaram a surgir, além de os escudos de times e seleções ganhar espaço principalmente nos anos 1930. Nos calções, os cintos deixaram de existir para dar lugar aos cordões e os uniformes passaram a ficar cada vez mais bonitos e bem clássicos.

As décadas passaram, os números surgiram nas camisas, clubes foram ganhando cada vez mais tradição com suas cores emblemáticas, mas o algodão continuava cravado nos mantos futebolísticos. Já estávamos nos anos 1980 e lá estavam os atletas com suas verdadeiras armaduras ensopadas nos términos das partidas. Se o time vestia cores escuras e jogava num dia de sol, então, que judiação! Num jogo entre Santos e Flamengo sob calor de 34 graus, por exemplo, o Peixe já levava ligeira vantagem por vestir o branco. Já o Mengo teria sérios problemas com o vermelho e o preto, que iriam absorver ainda mais o calor dos raios solares. A celulose, presente no algodão, era responsável por reter cerca de 50% do peso perdido dos atletas durante os jogos. Ou seja, se um jogador perdia dois quilos em uma partida, um quilo ficava na camisa. Era um absurdo! Isso sem contar os calafrios que alguns atletas tinham por conta da umidade da camisa, que diminuía a possibilidade de a pele respirar e derrubava a temperatura. Com a camisa fria, o organismo precisava trabalhar mais para manter a temperatura corporal.

Alemanha e Hungria na Copa de 1954: evolução em andamento.

Nos anos 70 e 80, os clubes até tentaram amenizar o calor dando aos seus atletas calções bem curtos, mas as camisas continuavam intactas. Só na segunda metade dos anos 1980 que o poliéster iria mudar de vez as camisas de todo o mundo.

Anos 1980 e 1990 – Patrocínios e cores

A Copa do Mundo do México, em 1986, trouxe de maneira maciça o poliéster para as camisas de futebol e mostrou para bilhões de pessoas a revolução pela qual o futebol passaria a partir daquele momento. Mais leve, perfeito para inserção de marcas e logotipos com mais detalhes, além de ter brilho, o tecido derrubaria de vez o algodão. Os principais beneficiados foram os atletas, que não iriam mais “suar a camisa”, literalmente, nos jogos. Além disso, a mudança norteou para melhor o rumo da indústria como um todo. Os clubes pegaram carona e agregaram a novidade em suas vestimentas, além de começarem a assinar contratos vertiginosos com empresas para que patrocinassem as partes frontais das camisas.

Nos anos 90, o marco ficou por conta da Copa do Mundo de 1994, nos EUA, quando as seleções esbanjaram criatividade e fizeram a Copa mais colorida de todos os tempos, com camisas ecléticas, cheias de formas, estilos e desenhos. Algumas tiveram resultados desastrosos, mas outras ficaram inesquecíveis e lindas, como as do campeão Brasil, da vice-campeã Itália, da Suécia, Holanda, Grécia, Argentina, Espanha, entre outras.

A camisa amarela do Brasil…
… E a azul. Saudades…

No Brasil, a moda também pegou e ficaram marcadas as camisas dos goleiros, a célebre camisa carijó do Bragantino, a listrada em verde e branco do Palmeiras, a cheia de estrelas do Cruzeiro, a tricolor do Grêmio, entre outras.

A camisa carijó do Bragantino, um ícone dos anos 90.

Mas as camisas ainda precisavam de ajustes. Elas eram leves, mas pareciam de plástico, pois o suor continuava retido, e, ensopadas, ganhavam quase 10 gramas em peso e dificultavam a performance dos atletas. O suor deveria evaporar e a camisa deixar o atleta o mais seco possível. Algo pouco confortável, também, era o calor que elas proporcionavam e o odor extremamente desagradável que elas exalavam (afinal, atire a primeira pedra quem não teve uma péssima lembrança olfativa depois de uma pelada jogando com uma camisa de poliéster xodó dos anos 90…). Será que a tecnologia reservava algo para o futuro?

Novo milênio – As camisas perfeitas

No final dos anos 90, as empresas de material esportivo começaram a criar tecnologias que ajudassem os atletas a manter a temperatura do corpo constante em qualquer situação, seja em calor extremo, seja no frio. Era preciso um tecido leve e dinâmico que oferecesse espaços para o suor evaporar. E, enfim, o alívio para os jogadores chegou com um “pequeno” atraso de mais de um século. A criação da tecnologia dry fit possibilitou tecidos inteligentes que absorviam o suor e o levava para uma rápida evaporação, acabando de vez com o desconforto durante os jogos. Essa tecnologia foi aprimorada, e, hoje, passados mais de 20 anos desde seu primeiro modelo, é 13% mais leve e tem uma passagem de ar 7% mais efetiva do que o dry fit lá do final dos anos 1990.

Às vezes, surgem “pérolas” no futebol que merecem lembrança, como as demonstradas acima, de Athletic Bilbao (ESP), Liverpool (ING), Brasiliense (BRA) e Napoli (ITA), respectivamente.

Vale lembrar que as empresas de matérias esportivos desenvolveram diferentes tipos de camisas com essas tecnologias e que é preciso certa atenção para distinguir tais características. Por exemplo: em 2012, o Barcelona lançou uma camisa em degradê que causou certo estranhamento para alguns, mas que teve um resultado final bem interessante. Olhando de perto as camisas dos jogadores (authentic) e dos torcedores (supporters), era possível notar que as dos jogadores eram mais leves, tinham poros entre as axilas e a parte lateral do tronco para passagem de ar e o logotipo em silkscreen. Já a dos torcedores não tinha os poros, era ligeiramente mais pesada e tinha o logotipo bordado. Notou a diferença? Tudo em prol do desempenho dos atletas. Nesse período, as empresas sempre fazem novas experiências e lançam, ano após ano, camisas ainda melhores, com mais tecnologia e até biodiversas, como a do Brasil na Copa de 2014, que tinha material reciclado de garrafas PET em sua composição.

A camisa do Brasil de 2014: tecnologia em cada centímetro

As camisas de futebol possuem, hoje, uma presença enorme no cotidiano mundial. Elas são vistas aos montes, em qualquer lugar, em qualquer país. São pensadas com carinho e peças de alta costura, além de serem um item da moda ostentarem um peso tão importante para os cofres dos clubes quanto a contratação de um jogador. Para os amantes de camisas, vestir seu manto preferido se tornou prazeroso e até fashion. É possível comprar camisas com o próprio nome, com números personalizados e vestir-se como os próprios jogadores.

Os clubes perceberam isso e possuem, além das camisas de jogo, camisas mais estilosas que podem muito bem ser utilizadas para um passeio, uma ida ao restaurante ou até a uma festa. Vale destacar, também, os lançamentos de camisas comemorativas estilo retrô, que possuem o desenho de décadas passadas, mas tecido moderno. No futebol, existe o velho ditado que diz: “camisa ganha jogo”. Mas, por mais de um século, ela também ganhou moda, espaço, tecnologia, e, acima de tudo, o coração dos torcedores. E seguirá assim.

Este texto foi escrito por Guilherme Diniz do blog Imortais do Futebol. Gostou da matéria ou gostaria de ver a história de algum clube em específico? Deixe sua opinião no comentário. E curta a fan page do Imortais:

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