A presença em massa de plataformas de entretenimento digital estampando as camisas de times do futebol nacional marca uma nova era dos patrocínios. O que antes era reservado a bancos, montadoras, hoje está dominado pelo setor de iGaming.
Longe de ser uma novidade passageira, essa mudança clara do mercado se transformou em uma das principais fontes de investimento do futebol nacional. Basta dar uma olhada em qualquer rodada da Série A. Até clubes que antes tinham dificuldade para conseguir fechar contratos robustos se transformaram em espaços publicitários valiosos.
A virada de chave aconteceu quando a regulamentação do setor de jogos e apostas online entrou em vigor no país. Com novas regras federais rígidas e obrigatoriedade de licença nacional, quem não tinha estrutura acabou saindo de cena. E as marcas sérias que sobraram viram a oportunidade de colocar seus nomes na camisa de um grande time brasileiro como uma prova de que a sua operação é limpa e legalizada.
Regulamentação e o mercado de patrocínios esportivos no Brasil
O futebol brasileiro sempre foi a maior vitrine do país, com mais de 156 milhões de espectadores em 2025, e isso somente no Brasileirão.
E durante muitos anos, o patrocínio dos clubes brasileiros ficou voltado quase que exclusivamente para empresas com forte apelo institucional, como montadoras de veículos, bancos, indústria farmacêutica, além de gigantes do setor de alimentos e de marcas esportivas.
Mas essa realidade mudou quando a chamada “Lei das Bets” entrou em vigor, em 1º de janeiro de 2025, o conjunto de regras que regulamenta a operação de plataformas de apostas e cassinos online no país.
Hoje, o Brasil é o quinto maior mercado regulado de plataformas online desse segmento no mundo, com segurança jurídica tanto para as empresas quanto para os jogadores. Isso abriu espaço para esses operadores de entretenimento digital investirem em publicidade ampla no país, incluindo clubes esportivos.
A expansão desse mercado muito se deve ao fato da imensa variedade de opções de lazer digital, com opções para todos os estilos, atendendo desde preferências por apostas esportivas, até cassinos online com transmissões em tempo real, como os jogos ao vivo BacanaPlay, em que os jogadores interagem com dealers reais.
Depois de anos operando em uma zona cinzenta, com operações sediadas em países estrangeiros, o setor saiu do limbo jurídico e segue em pleno crescimento, estampando suas marcas em uniformes de times de futebol do país – uma estratégia fortíssima para se aproximar do público em 2026.
O manto sagrado como outdoor
Já se passaram mais de 40 anos desde que o Conselho Nacional de Desportos (CND) passou a permitir o patrocínio comercial nas camisas de futebol em 1982. O torcedor está acostumado com isso. E ainda mais: o torcedor respeita e sabe da importância de uma parceria financeira para o clube.
O pioneiro absoluto com primeiro patrocínio na história do futebol na camisa de um clube foi o Bangu AC e a Fábrica Bangu, em 1948, burlando inclusive a proibição da FIFA.
Mas a virada de chave veio mesmo com o acordo Flamengo-Lubrax, em 1984. A entrada da Petrobras (Lubrax) na camisa do time de maior torcida do Brasil, validou o futebol como uma mídia corporativa séria, de alcance nacional massivo e abriu portas para multinacionais.
Três anos depois, a Coca-Cola, percebendo mina de ouro como espaço publicitário que as camisas de time se tornaram, fechou um acordo histórico patrocinando quase um campeonato inteiro de uma vez só. Dos 16 times da Copa União 1987 (o Campeonato Brasileiro da época), 9 estamparam a marca de refrigerantes na camisa.
Inclusive, sobre essa parceria, duas curiosidades interessantes:
- Seleção Brasileira: A única vez na história que a seleção levou uma marca privada na camisa oficial, foi com a Coca-Cola, em um amistoso contra o Chile, no mesmo ano, em 9 de dezembro de 1987.
- Coca-Cola sem o vermelho: Devido à rivalidade extrema com o rival Internacional, o Grêmio se recusou a usar a logo vermelha da Coca-Cola e, no manto tricolor, ela foi estampada em preto ou azul.
A camisa mudou – e o torcedor percebeu
Manter a identidade visual do manto sagrado era coisa séria – e o episódio histórico entre a gigante Coca-Cola e o Grêmio ilustra muito bem isso. Houve uma era em que os patrocinadores entendiam que estavam entrando em um espaço carregado de simbolismo e devoção do torcedor e aceitavam fazer pequenas adaptações em suas cores ou tamanho de logo.
Mas com o passar dos anos, essa parceria maleável foi ficando cada vez mais rígida por parte dos patrocinadores. Quem não se lembra do polêmico e irredutível logo laranja vibrante do Banco BMG em 2010 destoando totalmente da estética de mantos como o do Cruzeiro ou Flamengo?
Os patrocinadores começavam a exigir que os clubes seguissem manuais de marca rígidos dignos de um ativo de branding premium, como se fala no meio publicitário.
E com a regulamentação do iGaming no Brasil e a chegada em massa das plataformas online no futebol brasileiro, essa disputa visual e imposição estética atingiu um nível histórico. Logos são estampados em todo lugar: na frente, nas mangas, nas costas, em cima do ombro, mais na frente e assim por diante.
É claro que o torcedor entende que todo patrocínio é bem-vindo e que os recursos financeiros dessas parcerias são essenciais para o clube. Mas para aqueles realmente apaixonados pelos mantos sagrados, o que resta é adaptar-se a essa nova era e olhar pelo lado positivo: os cofres estão cheios.
